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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Não sei viver sem as consoantes mudas...


Durante estes dias de gripes e consequente ausencia de blogs, houve momentos em que pensei escrever alguma coisa e...até comecei, mas cheguei à conclusão que já não sei escrever. Não consigo adaptar-me a esta coisa da nova ortografia. Fiquei tristinha mas, a dar graças por já não ter que apresentar trabalhos escritos em português. Felizmente estou reformada.


Curiosamente, recebi por e-mail o texto que aqui coloco e que subscrevo na essencia, não literalmente, apenas porque o meu computador ainda não está actualizado para a referida correcção automática. E também não sei se ainda vou a tempo de "crescer e encontrar novos amigos" como o autor, que não conheço, refere.


O texto reza então assim:

"Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia.
De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio.
Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia
para o outro, que os atores atuem e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo
que já não tenham.

As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar. "

Recebido por e-mail

9 comentários:

  1. Faltou-te só o título: "De fato, lá temos que nos habituar (ou será abituar?)..."
    Especialmente da nossa idade, julgo que não haja quem não concorde...

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  2. Lucia, discordo completamente, quando dizes que já não sabes escrever. Então o que direi eu? Mas mesmo assim com acordos ou sem eles, manter-me-ei fiel ao que me foi ensinado e aprendi. Se acharem que estou errada, que achem, pois eu pensarei o mesmo em relação aos aderentes da nova ortografia. Senti-me um pouco contipada nas palavras, vê lá se tomas um potente analgésico e se as curas.
    Stella, será haja ou "aja" quem não concorde?

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  3. Oh Milú, estava a gostar tanto da tua conversa até chegar ao "contipada nas palavras"...
    E esse "aja" deve ter origem no facto de, depois do "spa" no hospital, teres ficado com genica a mais e quereres "acção". Verdade? Vamos agir? Mas não na concordância com o acordo... Não serve de nada.

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  4. Eu até me custa dizer, mas saíu-me a Palavra "monstra"... Devem estar a falar com a nova ortografia e não comigo, espero!

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  5. Claro que só pode ser contigo. Eu ressalvo o que quis escrever após a palavra ortografia. Queria eu dizer à Lúcia " Senti-te um pouco constipada nas palavras". E em relação ao "haja" certamente haverá quem queira agir sua "monstra".

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  6. Olá!
    Pois eu vou continuar a escrever como me lembrar ( algumas palavras sairão mesmo mal...Mas eu já não me lembro!)...
    Mas acho que até nos dá um certo estatuto, digno da nossa idade, acrescentar um c ou um p aqui e além...
    Até porque acertando ou errando estaremos sempre de acordo com alguém...
    E o meu computador é moderno, mas ainda vai obedecendo ao que eu lhe digo!!!! Embora por vezes pareça ter vida própria!

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  7. Com o novo acordo "ortográphico", ainda me hão-de prender.
    Fez-me lembrar a palavra Egipto.
    Agora escreve-se EGITO?
    Como se chamam aos habitantes do Egito?
    Egitos?
    Egipcios?
    Egitanos?
    Egicios?
    Que souber que me explique, pois não sou Douto em Português nem tãopouco no novo acordo.

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